Controle de estoque por grade: a ficha por tamanho e cor
Quem revende roupa não controla peças, controla combinações. Vinte modelos em três cores e quatro tamanhos não são vinte linhas de controle: são até duzentas e quarenta. É por isso que a conta de cabeça funciona na primeira compra e desmonta na terceira — e é por isso que a ficha por grade existe. Este guia mostra o que cabe em cada linha, o que a peça já traz pronto por obrigação legal, e como usar giro e curva ABC com a definição que o Sebrae publica, sem inventar meta que fonte nenhuma fixa.
Neste artigo
- O que é a ficha por grade, e por que a peça já traz metade da chave
- A ficha mínima de quem tem 200 peças
- Conferir: a contagem que mantém a ficha viva
- Giro: a fórmula publicada e o que ela não responde
- Curva ABC: o método, com o corte que a fonte publica
- O que a ficha decide na próxima compra
- Onde a ficha por grade não se aplica
- Perguntas frequentes
Não existe controle de estoque de roupa que funcione contando peças. Roupa se vende em combinação — modelo, cor e tamanho —, e é a combinação que acaba, não o modelo.
Por isso a pergunta certa nunca é "quantas blusas eu tenho". É "quantas blusas pretas tamanho M eu tenho".
Uma linha por combinação de modelo, cor e tamanho, com custo, data de entrada, saídas e saldo. A peça já carrega parte dessa chave por obrigação legal: a etiqueta têxtil exige "Indicação de tamanho ou dimensão, conforme o caso" (Portaria Inmetro nº 118/2021, Anexo, Capítulo II, item 3, alínea "e", acesso em 24/08/2026). Giro e curva ABC entram depois, sobre essa mesma linha — nunca sobre o modelo inteiro.
O que é a ficha por grade, e por que a peça já traz metade da chave
Grade, no vocabulário do atacado, é o conjunto de tamanhos em que o fornecedor vende um modelo — assunto que o guia de pedido mínimo, grade e sortido explica em detalhe, inclusive por que o P de um fornecedor não é o P do outro. Aqui a grade aparece do outro lado do balcão: como a unidade do seu controle depois que a mercadoria chegou.
A boa notícia é que você não precisa criar essa chave do zero. A peça que você revende é obrigada a informar cinco itens, entre eles nome ou razão social do fornecedor, país de origem, composição, cuidado de conservação e a indicação de tamanho — o que a lei exige da etiqueta está detalhado no guia sobre o que significa atacado, varejo e atacarejo. Fornecedor, composição e tamanho já vêm impressos: é dado de controle entregue de graça.
A cor é a exceção, e vale registrar a distinção porque ela confunde muita gente. Cor não está entre as informações obrigatórias da norma. Ela é chave sua, do lojista, e é justamente a metade da grade que ninguém consegue reconstituir depois — a etiqueta diz "M", não diz "verde-militar".
Uma lacuna precisa ser declarada aqui, porque o guia inteiro se apoia nela. Não existe metodologia oficial de ficha de estoque por grade. A palavra "grade" não aparece nenhuma vez nos dois documentos do Sebrae usados neste guia, nem na Portaria 118/2021, que se limita a exigir a indicação de tamanho sem mandar seguir tabela nenhuma. "Grade" é vocabulário de mercado do vestuário. O que existe de oficial são definições de indicador — e é só isso que este guia atribui a fonte.
A ficha mínima de quem tem 200 peças
Com duzentas peças, a tentação é controlar por modelo, porque dá vinte linhas em vez de duzentas e quarenta. É o erro que cobra na primeira recompra: o saldo diz sete blusas, você não repõe, e as sete são GG.
A ficha mínima tem sete campos por linha:
- Código da combinação — modelo, cor e tamanho juntos. Pode ser tão simples quanto BLU-PRETO-M. É o que o mercado chama de SKU, e é a linha do controle.
- Descrição curta — o nome que você usa para a peça na conversa com o cliente, não o do fornecedor.
- Custo unitário — o custo real da peça, que não é o valor da etiqueta do fornecedor; o rateio de frete, embalagem e imposto está no guia de como calcular o preço de venda.
- Data de entrada — o dia em que a peça entrou, não o dia da compra. É esse campo que faz a idade do estoque existir.
- Quantidade que entrou.
- Saídas, com data.
- Saldo.
A ficha pode viver num caderno ou num arquivo no computador — este guia não indica ferramenta, e a escolha não muda nada do que vem abaixo. O que decide é a chave da linha.
O lançamento de entrada nasce do documento que veio com a mercadoria, e não do olho: é a nota de entrada, ou a declaração que a substitui quando cabe, que diz quantas peças e por quanto. O guia de nota fiscal na revenda de roupa trata de quando cada documento aparece. Lançar pela contagem visual do fardo é como a diferença entra na ficha no primeiro dia.
Conferir: a contagem que mantém a ficha viva
Ficha que ninguém confere vira ficção em poucas semanas, e o motivo raramente é venda mal lançada. É o movimento que não passa pelo caixa.
A ficha técnica do Sebrae sobre organização e controle de estoque arrola, no escopo do serviço, "Categorização do estoque; Rotinas de inventário e conferência; Gestão e tratamento de perdas/desvios de estoque" (Sebrae, ficha 11002-3, acesso em 24/08/2026). É lista de escopo, não passo a passo publicado — e o documento não fixa periodicidade nem valor de referência para nenhum indicador. Quem disser que a acurácia "tem de ser de 98%" não tirou isso dali.
O mesmo documento define acurácia do estoque como a "precisão das informações de estoque registradas nos sistemas em comparação com o estoque físico real". Traduzido para a sua arara: você conta, compara com a linha, e a diferença é o tamanho do seu problema naquele grupo.
Quatro movimentos costumam sumir da ficha, e todos têm dono no site:
- Peça em consignação — saiu da loja e ainda é sua; o acerto com a sacoleira tem regra própria e a peça precisa continuar na ficha, em outra situação.
- Troca — a peça devolvida volta ao saldo, e vale saber quando a loja é obrigada a trocar antes de prometer troca que vira estoque de volta.
- Defeito — peça com vício não é saldo vendável; os prazos da troca por defeito decidem o que fazer com ela.
- Entrada que não chegou — lançar o pedido como entrada antes de receber é o jeito mais rápido de a ficha mentir; se o fornecedor não entregou, aquilo nunca foi estoque.
Com duzentas peças, a contagem completa cabe numa manhã. O critério de frequência é o inverso do risco, e a curva ABC mais adiante diz onde apertar.
Giro: a fórmula publicada e o que ela não responde
O Sebrae publica a definição e a conta no mesmo parágrafo: "Giro de Estoque: Quantas vezes seu estoque é vendido e reposto em um ano? Um giro alto sinaliza eficiência. Para calcular, divida o custo das mercadorias vendidas pelo estoque médio anual. Quanto maior, melhor!" (Sebrae, coleção Ideias de Negócio — Confecção, acesso em 24/08/2026). O "quanto maior, melhor" é frase do Sebrae, e fica atribuída: não é regra universal.
A ressalva é fácil de enxergar na arara. Giro alto pode ser sinal de que a mercadoria escolhe bem o cliente — e pode ser sinal de que você ficou sem os tamanhos do meio da grade metade do mês. As duas situações produzem o mesmo número. É por isso que o giro isolado não decide nada.
Calculado por linha, o quadro muda. O mesmo modelo tem giros diferentes por tamanho e por cor, e a média da loja esconde exatamente a informação que interessa: qual combinação sustenta a recompra e qual só ocupa espaço na arara. Em segmentos de grade larga, como roupa infantil e plus size, essa diferença entre tamanhos é a regra, não a exceção.
O Sebrae define outros quatro indicadores na mesma ficha técnica, e todos operam sobre a linha da grade: dias em estoque, "quantos dias, em média, os produtos permanecem em estoque antes de serem vendidos"; cobertura de estoque, "quantos dias, em média, o estoque atual sustentaria a demanda se não houvesse novas entradas"; nível de serviço ao cliente, a "capacidade da empresa em atender à demanda dos clientes"; e índice de obsolescência, a "proporção de estoque que se tornou obsoleto em relação ao estoque total". São definições, e o documento não publica meta para nenhuma delas.
Curva ABC: o método, com o corte que a fonte publica
Curva ABC é técnica de gestão, não norma. O Sebrae a descreve como o processo que serve "para classificar os produtos do seu estoque naqueles mais e menos relevantes", com o qual "é possível maximizar ganhos e diminuir perdas" (Sebrae, curva ABC, conteúdo atualizado em 06/09/2022, acesso em 24/08/2026 na captura do Internet Archive, porque a URL viva redireciona para a central de conteúdos).
O corte que a fonte publica não é o dos "20% dos itens" que circula no nicho — essa proporção não foi localizada em nenhuma fonte citável nesta apuração. O que o Sebrae escreve é isto: "para o grupo de produtos ser considerado como A, ele precisa representar 75 % ou mais do valor do critério. Os do grupo B, por sua vez, correspondem a 76% a 95%. E, por fim, os demais ocupam o grupo C". A régua é de valor acumulado, e a redação é essa — reproduzida sem arredondar.
O ponto que mais rende no varejo de roupa é o seguinte: o mesmo estoque produz curvas diferentes conforme o critério. O Sebrae demonstra isso com dois exemplos sobre os mesmos produtos e as mesmas quantidades. "Se o que você, empresário, está buscando é identificar os itens mais vendidos, você deve utilizar o critério de valor do faturamento. No entanto, se quer saber quais os mais lucrativos, o melhor é empregar o critério de lucro bruto." O exemplo do artigo é de mercearia, não de confecção — vale como ilustração do método, nunca como dado de moda.
E para que serve a classificação, depois de pronta? A ficha técnica responde em uma linha: identificar os itens pela curva ABC "de modo a permitir estabelecer controles mais rígidos e políticas de compras e vendas diferenciadas". Ou seja, tratamento diferente por grupo — não um relatório a mais.
Aplicada à grade, a classificação é do SKU, não do modelo. É comum um mesmo modelo ter uma combinação no grupo A e outra no C.
O que a ficha decide na próxima compra
A ficha só se paga quando vira decisão de compra. Com o histórico por linha, a pergunta na hora de repor deixa de ser "de que modelo eu gostei" e passa a ser "qual combinação vendeu, em quanto tempo, e a que custo".
Isso muda a conversa com o fornecedor. Grade fechada obriga a levar tamanhos que você não escolheu; grade aberta custa mais caro por peça — a mecânica está no guia de pedido mínimo, grade e sortido, e a decisão entre pagar mais por peça ou carregar tamanho parado só existe com a ficha na mão. Sem ela, você recompra a grade inteira para conseguir os dois tamanhos que faltavam.
A mesma ficha técnica do Sebrae lista, entre as rotinas de controle, o "Cálculo de consumo, redução, reserva e ponto de reabastecimento (ressuprimento) de estoque" e a "Identificação da idade, lote econômico, estoque mínimo, máximo e de segurança de itens do estoque". São conceitos, não fórmulas publicadas — o documento não traz o cálculo de nenhum deles. O que dá para fazer com duzentas peças é a versão simples: quanto tempo aquela linha leva para acabar, e quanto tempo leva para chegar a reposição.
O segundo número não depende de você. Comprar num polo de atacado numa viagem trimestral e comprar de um fornecedor que envia pelos Correios são prazos diferentes, e importar é outro patamar — quanto tempo demora uma encomenda da China é o guia que mostra por que o prazo trava a revenda. A data de entrada da ficha é o que permite medir isso com o seu próprio histórico, em vez de acreditar no prazo prometido.
Quem ainda está montando a operação encontra a conta do capital inicial em quanto precisa para começar a revender roupas.
lei, decreto, portaria, órgão público e estatística oficial
entidade de classe e instituição do setor — não são órgão público
site, FAQ e material de quem administra o lugar — é declaração do interessado
Onde a ficha por grade não se aplica
Três situações não cabem nesse molde, e forçar a ficha nelas gera trabalho sem retorno.
Peça única. Em brechó, cada peça é um item de saldo um: não há grade a repor, e o controle vira identificação, não reposição. As obrigações próprias desse formato — inclusive a identificação exigida da peça usada — estão em como montar um brechó.
Estoque compartilhado entre canais. A mesma peça anunciada em marketplace e vendida no balcão é uma linha só na ficha e duas vitrines no mundo. Quando as duas vendem no mesmo dia, a ruptura não é de estoque, é de baixa — o que muda em cada formato de operação está em loja física ou loja online.
Peça em poder de terceiro. Consignação e mostruário saem da loja sem sair do seu patrimônio. Se sumirem da ficha, a contagem seguinte acusa uma perda que não existe.
E há o caso oposto, o mais comum de todos: o estoque que já está parado. A ficha por grade é instrumento de prevenção, não de tratamento — ela diz o que não recomprar. O que fazer com o que já foi comprado e não sai é assunto inteiro de outro guia, comprei roupa e não estou conseguindo vender, que trata das causas e das saídas com as regras que valem para remarcação. Este guia para aqui de propósito.
Transparência: alguns links deste site podem ser de parceria — comprando por eles, o site pode receber comissão, sem custo extra pra você. A apuração não muda: ficha com data e fonte, com ou sem parceria.
Perguntas frequentes
Por tamanho e cor. Se a linha do controle for o modelo, o saldo diz que ainda há sete blusas e não diz que as sete são tamanho GG — que é exatamente a informação que decide se você repõe ou não. Uma combinação de modelo, cor e tamanho é uma linha; um modelo em três cores e quatro tamanhos ocupa doze. Parece trabalho demais até a primeira reposição feita às cegas, quando você recompra a grade inteira do fornecedor para conseguir os dois tamanhos que faltavam.
O Sebrae publica assim, na coleção Ideias de Negócio: "divida o custo das mercadorias vendidas pelo estoque médio anual". Nada impede calcular por período menor — essa parte é observação nossa, não do texto citado. O texto pergunta "Quantas vezes seu estoque é vendido e reposto em um ano?" e afirma que "um giro alto sinaliza eficiência". A frase é do Sebrae e vai atribuída. Vale calcular por grade, e não só para a loja inteira: o giro médio esconde que o P vendeu em três semanas e o GG está na arara desde a compra.
Essa proporção não foi localizada em nenhuma fonte citável nesta apuração — ela circula em material comercial. O critério que o Sebrae publica é outro e é por percentual acumulado do valor do critério escolhido: o grupo A precisa representar "75 % ou mais do valor do critério", o grupo B corresponde a "76% a 95%" e os demais ocupam o grupo C. Repare que a régua é do valor acumulado, não da quantidade de itens.
Nenhuma das fontes oficiais consultadas fixa uma frequência. A ficha técnica do Sebrae sobre organização e controle de estoque arrola "rotinas de inventário e conferência" como parte do escopo, sem dizer de quantos em quantos dias, e não publica valor de referência para acurácia. Então o número é seu, e o critério prático é o inverso do risco: contar mais vezes o grupo que concentra o valor e menos vezes a cauda.
Não. A Portaria Inmetro nº 118/2021 exige cinco informações no produto têxtil, e a que trata de medida é a "Indicação de tamanho ou dimensão, conforme o caso" — cor não está na lista. A cor é chave de controle do lojista, não exigência de norma. Na prática as duas coisas convivem: a etiqueta entrega o tamanho de graça, e a cor você registra porque ela é metade da grade que decide a recompra.
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