Precificação é onde mais gente perde dinheiro sem perceber. Não é falta de venda — é venda feita com preço formado no chute. A conta parece simples, mas quase sempre falta metade dela.
O custo real da peça não é o que você pagou por ela
Todo mundo calcula o preço da peça. Poucos somam o resto. O custo real inclui:
- Preço da peça no fornecedor.
- Frete de entrada — o que custou trazer a mercadoria até você, dividido por peça.
- Deslocamento — passagem, hospedagem e alimentação da viagem de compra, também rateados.
- Embalagem — saco, etiqueta, lacre, papel.
- Frete de saída, quando não é o cliente quem paga.
- Taxa do canal — o percentual que o marketplace retém por venda.
- Taxa de pagamento — cartão, parcelamento, gateway.
- Imposto, se você já opera com CNPJ.
- Perda — a peça que não vendeu, sumiu, voltou com defeito ou foi queimada em promoção.
Quem compra à distância troca deslocamento por frete de entrada — e o frete precisa ser dividido pelo número de peças do pedido, não ignorado. Duas consequências práticas: pedido pequeno rateia mal, e categoria pesada (jeans, moletom) rateia pior que categoria leve. A comparação honesta entre dois fornecedores é sempre pelo custo da peça já entregue no seu endereço, nunca pelo preço de tabela.
Se de cada dez peças compradas duas acabam vendidas com desconto pesado ou não vendem, quem paga essa conta são as oito que venderam bem. Ignorar isso é o motivo mais comum de o lucro previsto nunca aparecer no caixa.
Markup e margem não são a mesma coisa
Essa confusão é responsável por boa parte dos negócios que quebram achando que estão lucrando.
- Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo para chegar ao preço.
- Margem é quanto do preço de venda sobra como lucro.
Veja como eles divergem:
| Markup aplicado | Preço sobre custo 100 | Margem real |
|---|---|---|
| 1,5× | 150 | 33,3% |
| 2× | 200 | 50,0% |
| 2,5× | 250 | 60,0% |
| 3× | 300 | 66,7% |
Repare: dobrar o custo não dá 100% de margem — dá 50%. Quem acha que “vendo pelo dobro, então lucro 100%” está superestimando o próprio resultado pela metade. E isso antes de descontar taxa de canal e imposto.
Por que a mesma peça tem preços diferentes
Cada canal de venda cobra uma coisa. Vender a mesma peça pelo mesmo preço em todos eles significa aceitar margens completamente diferentes sem perceber.
| Canal | O que o canal cobra | Efeito no preço |
|---|---|---|
| Venda direta (WhatsApp, Instagram) | Nenhuma taxa de canal | Preço pode ser o menor |
| Loja própria | Mensalidade + taxa do meio de pagamento | Preço intermediário |
| Marketplace | Comissão por venda + regras de frete | Preço precisa ser maior |
Há ainda o programa de frete grátis de alguns marketplaces, em que o vendedor assume parte ou todo o custo de envio acima de determinado valor. Isso muda a conta por completo e precisa entrar na formação do preço, não ser descoberto depois no extrato.
Faturar não é lucrar
A frase que mais se ouve de quem está começando é “estou vendendo bem, mas não sobra dinheiro”. Quase sempre são dois problemas somados:
- Preço formado sem todos os custos. A margem que existia na planilha mental não existia na realidade.
- Descasamento de prazo. Você paga o fornecedor à vista, mas recebe do cartão ou do marketplace semanas depois. O faturamento aconteceu; o dinheiro, não.
O segundo é especialmente traiçoeiro porque piora quanto mais você vende: crescer exige comprar mais antes de receber o anterior. É por isso que negócio em crescimento quebra por caixa, não por falta de venda.
Antes de pensar em lucro, saiba quantas peças por mês você precisa vender só para cobrir seus custos. Esse número é o seu chão. Sem ele, você não sabe se um mês foi bom ou ruim — só sente.
Desconto e promoção sem destruir a margem
- Desconto sai da margem, não do custo. Um abatimento de 20% no preço pode significar metade do seu lucro naquela peça.
- Queime o que não gira, não o que vende. Promoção existe para liberar capital preso, não para “movimentar”.
- Combo é melhor que desconto simples. Aumenta o valor do pedido e dilui o frete, em vez de só reduzir o que entra.
- Cuidado com o parcelamento. Parcelar sem juros tem custo — e ele sai do seu preço.
A planilha que faz essa conta por você
Você preenche o custo da peça, o frete, a taxa do canal e o imposto — e ela devolve o preço sugerido por canal, a margem real e o seu ponto de equilíbrio. Vem no kit, junto com o capítulo completo de precificação.
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- Some todos os custos por peça, incluindo rateio de frete e viagem.
- Acrescente a provisão de perda.
- Defina a margem que você quer, não o markup.
- Calcule o preço em cada canal, incluindo a taxa daquele canal.
- Compare com o preço praticado no mercado para peça equivalente.
- Se o preço não couber no mercado, o problema é o custo — não adianta apertar a margem.
O passo 6 é o mais importante e o mais ignorado. Quando o preço calculado fica acima do que o mercado paga, a saída não é vender no prejuízo torcendo por volume: é comprar melhor, mudar de fornecedor ou mudar de produto.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre markup e margem?
Markup é o multiplicador sobre o custo. Margem é o percentual do preço de venda que sobra como lucro. Markup de 2 vezes resulta em 50% de margem — não 100%.
Posso usar o mesmo preço em todos os canais?
Não deveria. Cada canal cobra uma taxa diferente, e alguns exigem participação no frete. A mesma peça precisa de preços distintos para manter a mesma margem final.
Qual markup usar em roupa?
Não existe número universal — depende da categoria, do canal, do seu custo operacional e do que o mercado paga. O caminho correto é calcular a partir dos seus custos reais e conferir se o preço resultante cabe no mercado, e não copiar um multiplicador da internet.
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