Abra a busca por “vestido” ou “camiseta” nos dois marketplaces e role um pouco. Você vai ver uma parede de preços terminados em R$78,90 e R$79,90. Não é coincidência, não é psicologia de preço quebrado, e não é combinação entre vendedores: são duas plataformas diferentes que, por regulamentos que não têm nada a ver um com o outro, colocaram uma fronteira de cobrança quase no mesmo número. Quem vende roupa esbarra nela todo dia porque a faixa de preço de peça de revenda cai justamente ali.
A parede dos R$79
No Mercado Livre, R$79 é a linha do frete grátis. Abaixo dela o comprador paga o frete e o vendedor paga um custo por unidade vendida. A partir dela o frete grátis é obrigatório e o vendedor passa a bancar uma fatia dele — a fatia varia conforme a reputação da conta, o que transforma reputação em item de custo, não só em selo de vitrine.
Na Shopee, R$80 é onde a tabela de comissão muda de faixa. Segundo a política de comissão para 2026 publicada no Centro de Educação do Vendedor e em vigor desde 1º de março de 2026, até R$79,99 o vendedor CNPJ paga 20% mais R$4 fixos por item; de R$80 em diante a comissão cai para 14%, mas a tarifa fixa salta para R$16.
Repare no que isso faz. Uma peça anunciada a R$79,99 paga R$20,00 de taxa, ou 25% do preço. A mesma peça anunciada a R$85 paga R$27,90, ou quase 33%. Você aumentou o preço em R$5 e o custo da venda subiu R$7,90 — em reais e em percentual. Fazendo a conta ao longo da tabela, o percentual só volta ao patamar dos 25% perto dos R$180.
A conta acima considera só a taxa da plataforma. Falta o custo da peça, o frete de entrada, a embalagem, o imposto e a perda — que é o que de fato define se um preço fecha ou não. Como montar essa conta inteira está em como calcular o preço de venda de roupa.
O que cada uma cobra hoje
Taxa é informação pública e muda com frequência — as duas plataformas mexeram na estrutura em março de 2026. O que está abaixo foi conferido em julho de 2026; antes de precificar qualquer coisa, confirme no simulador de custos da própria plataforma, que é a única fonte que vale para o seu caso.
Shopee — política de comissão 2026 para vendedor CNPJ, vigente desde 1º de março de 2026:
| Preço do item | Comissão | Tarifa fixa por item |
|---|---|---|
| Até R$79,99 | 20% | R$4 |
| R$80 a R$99,99 | 14% | R$16 |
| R$100 a R$199,99 | 14% | R$20 |
| R$200 a R$499,99 | 14% | R$26 |
Duas mudanças de 2026 pesam mais do que os números da tabela: o teto de comissão foi removido e a adesão ao Programa de Frete Grátis deixou de ser opcional. Quem tinha planilha antiga precisa refazer.
Mercado Livre — a comissão é por categoria e por tipo de anúncio. Nas tabelas de 2026 para moda, o percentual citado é de 14% no anúncio Clássico e 19% no Premium (o Premium oferece parcelamento sem juros ao comprador e mais exposição). Abaixo de R$79 existe ainda um custo por unidade vendida, na casa de R$5,50 a R$6,50 conforme a faixa; acima de R$79 esse custo sai da conta e entra a fatia do frete. Em 2 de março de 2026 o cálculo passou a considerar peso e dimensão da embalagem, e as tabelas de terceiros divergem no detalhe — mais um motivo para conferir no simulador oficial.
Por que a tarifa fixa manda mais que a comissão
Quem compara marketplace olhando só o percentual está olhando o número errado para esta categoria. Em produto de ticket alto o percentual é tudo. Em roupa de revenda, que costuma ficar bem abaixo de R$100, o valor fixo por item é que decide, porque ele não diminui quando o preço da peça diminui — ele só ocupa uma fatia maior.
| Preço da peça | Quanto o fixo representa (Shopee, R$4) | Quanto o fixo representa (ML, ~R$6) |
|---|---|---|
| R$25 | 16% do preço | ~24% do preço |
| R$50 | 8% do preço | ~12% do preço |
| R$75 | 5,3% do preço | ~8% do preço |
Numa peça de R$25, o valor fixo sozinho já pesa mais do que boa parte das comissões percentuais do mercado — e é por isso que “qual marketplace é mais barato?” tem respostas opostas dependendo do que se vende. Para quem trabalha com meia, calcinha e acessório de valor pequeno, esse é o número que manda, e vender em kit em vez de unidade é uma resposta comum do ramo justamente por causa dessa estrutura de cobrança.
Quem compra em cada uma
O comportamento das duas bases é diferente, e isso aparece nos dados que as próprias empresas e as consultorias de audiência publicam.
O estudo de hábitos de consumo divulgado pelo Mercado Livre e Mercado Pago em janeiro de 2026, com mais de 4,6 mil consumidores, descreve uma compra planejada: 45% dos entrevistados usam campanhas promocionais para comprar algo que já estava no orçamento, e para 80% deles frete grátis e condições de entrega pesam tanto quanto o desconto. Na mesma pesquisa, moda aparece com 10% entre as categorias mais buscadas, atrás de eletrônicos (15%) e de material escolar e acessórios para veículos (12%).
A Shopee joga outro jogo. O Relatório Setores do E-commerce no Brasil, da Conversion, mostra a plataforma com uma das maiores bases do país e uma frequência de sessões por usuário muito alta — na casa de dezenas de aberturas de app por mês. Não é gente indo comprar uma coisa específica: é gente entrando para ver o que apareceu. Essa diferença é mais importante para roupa do que qualquer tabela de taxa, porque roupa é compra de impulso com frequência muito maior do que furadeira.
Quem vende roupa não disputa preço só com o vizinho de vitrine. Levantamento do BTG Pactual com dados da Sensor Tower referente ao segundo trimestre de 2026 aponta a Shein saindo de 87,7 para 113,1 milhões de usuários ativos mensais no Brasil, um crescimento de 29% — operando exatamente na faixa de vestuário de ticket baixo. A régua de preço que o seu cliente carrega na cabeça foi calibrada lá, mesmo quando ele está comprando em outro lugar.
Frete: cubagem de um lado, subsídio obrigatório do outro
Este é o ponto onde as duas plataformas tratam roupa de um jeito que não se aplica a mais nenhuma categoria.
No Mercado Livre, desde 2 de março de 2026 o frete é calculado por cubagem — compara-se o peso real com o peso volumétrico da embalagem e cobra-se pelo maior. Produto pequeno e leve saiu ganhando; produto volumoso, mesmo leve, ficou mais caro. Traduzindo para quem compra em polo: um lote de camiseta do Brás e um lote de moletom de Brusque deixaram de custar a mesma coisa para despachar, mesmo com peso parecido na balança. Malha de inverno, jaqueta e casaco ocupam volume; camiseta, lingerie e peça de malha fina comprimem. A escolha do que comprar no polo virou, indiretamente, uma decisão de frete.
Na Shopee, o Programa de Frete Grátis passou a ser obrigatório para todos os vendedores em 2026, com subsídio da plataforma escalonado por faixa de preço do pedido. Como peça de roupa é leve, o subsídio costuma cobrir uma parcela relevante do envio de uma peça única — vantagem que não existe em categoria pesada. Em compensação, deixou de ser uma escolha: o preço mínimo viável do seu anúncio já nasce com essa regra dentro.
Escolher o canal é a parte simples. O anúncio é que decide.
O kit traz o comparativo completo dos marketplaces, o passo a passo de abrir e configurar cada conta, a fórmula de título que o algoritmo lê, o checklist de anúncio e a planilha que calcula o preço por canal.
Ver o kit por R$29,90 →CPF, CNPJ e a régua dos 450 pedidos
As duas aceitam cadastro de pessoa física, o que costuma ser a primeira pergunta de quem está começando. A diferença é que a Shopee publicou uma régua com número: pela política de 2026, vendedor CPF que passa de 450 pedidos em 90 dias paga uma tarifa adicional por item vendido, e há um patamar de faturamento anual a partir do qual a plataforma indica a migração para CNPJ.
O detalhe que interessa a esta categoria: a régua é de pedidos, não de faturamento. Quatrocentos e cinquenta pedidos em 90 dias são cinco pedidos por dia. Quem vende peça de R$45 chega a esse número com uma fração do faturamento de quem vende produto de ticket alto — ou seja, o vendedor de roupa encosta nesse limite muito antes, vendendo muito menos dinheiro. Não é armadilha, é característica da estrutura: quem vende barato faz mais pedidos por real faturado. O que muda em cada regime de cadastro está em comprar e vender no CPF.
Quando o dinheiro cai
Nas duas o valor fica retido até a entrega ser confirmada, e só então começa a contar o prazo de liberação. A documentação do Mercado Livre descreve liberação poucos dias depois da entrega em vendas com Mercado Envios, com prazo maior para conta sem reputação formada. A Shopee libera quando o comprador confirma o recebimento no app, ou automaticamente alguns dias depois da entrega registrada, quando ele não confirma.
Para quem está começando, esse intervalo importa mais do que um ou dois pontos de comissão. Se o plano é repor estoque com o dinheiro da venda anterior, o ciclo real não é “vendeu, comprou de novo”: é vendeu, esperou a entrega, esperou a liberação, esperou a transferência — e só então comprou. Contar com o dinheiro antes da hora é o erro que trava a operação de quem começou com pouco capital.
A devolução que só roupa tem
Em quase toda categoria, devolução significa que alguma coisa deu errado: veio defeito, veio trocado, veio quebrado. Em roupa, o item mais comum chega exatamente como foi anunciado e volta assim mesmo — porque não serviu. É a única categoria de marketplace em que o produto perfeito é devolvido em volume.
Isso não é defeito de plataforma, é característica da mercadoria, e ela cobra pedágio nas duas: frete de ida e volta, peça que volta fora da grade e o indicador de devolução da conta, acompanhado pelas duas. Some a isso o fato de que numeração de roupa não é padronizada entre fabricantes — o M de uma marca não é o M de outra —, e fica claro por que reduzir devolução em roupa é trabalho de anúncio, não de escolha de canal. Se você já tem mercadoria parada e não sabe se o problema é preço, anúncio ou canal, o diagnóstico está em comprei roupa e não estou conseguindo vender.
Dá para estar nas duas?
Dá, e muita gente do ramo está. Mas o custo de estar nas duas não é abrir a segunda conta — isso leva uma tarde. O custo é operacional, e ele é maior em roupa do que em qualquer outra categoria por um motivo específico: o estoque de roupa é fragmentado por tamanho e cor. Cinco tamanhos e quatro cores da mesma referência são vinte posições de estoque para uma peça só. Anunciar essas vinte posições em dois lugares, sem integração, é criar vinte chances por referência de vender o que já saiu.
E cancelamento por falta de estoque é penalizado nas duas. É aí que o revendedor de roupa se separa do de eletrônico: o segundo tem uma unidade de um SKU e sabe exatamente quando acabou.
Três perguntas honestas antes de duplicar o esforço:
- Você já sabe o que vende? Dois canais com mercadoria que não gira só multiplicam o silêncio — e escolher o que comprar começa no polo certo, assunto do guia de fornecedores de roupas.
- Você consegue responder nos dois? Tempo de resposta é indicador acompanhado nas duas, e cliente de roupa pergunta muito: medida, cor real, caimento.
- Seu estoque está contado? Se o controle hoje é a memória, o segundo canal transforma isso em cancelamento.
O caminho que a maioria segue é sequencial: começa em uma, aprende a operação com volume pequeno, arruma o controle de estoque e só então abre a segunda. Não porque a segunda seja ruim — porque aprender duas operações ao mesmo tempo, sem saber ainda qual peça gira, é resolver dois problemas sem ter resolvido nenhum.
Perguntas frequentes
Qual cobra menos para vender roupa?
Depende da faixa de preço da peça. A Shopee cobra comissão mais tarifa fixa por item, com a faixa mudando em R$80. O Mercado Livre cobra comissão por categoria mais um custo por unidade abaixo de R$79, e acima disso entra a fatia do frete grátis. Em peça barata, a tarifa fixa pesa mais que o percentual nas duas. Confirme no simulador de cada plataforma antes de precificar.
Por que tanta roupa é anunciada a R$78,90 ou R$79,90?
Porque as duas plataformas colocaram uma fronteira de cobrança perto desse valor, por motivos diferentes: no Mercado Livre é onde o frete grátis obrigatório começa; na Shopee é onde a tarifa fixa por item sobe de R$4 para R$16. Nos dois casos, atravessar a linha custa dinheiro.
Dá para vender nas duas ao mesmo tempo?
Dá. O problema não é a segunda conta, é manter o mesmo estoque anunciado em dois lugares sem vender o que já saiu — e roupa tem estoque fragmentado por tamanho e cor. Cancelamento por falta de estoque é penalizado nas duas. O comum é começar em uma e duplicar depois.
Precisa de CNPJ?
As duas aceitam pessoa física, com limites. A Shopee publicou para 2026 uma régua de 450 pedidos em 90 dias para vendedor CPF, acima da qual há tarifa adicional por item, além de um patamar de faturamento anual que indica a migração para CNPJ. Como a régua é de pedidos, quem vende peça barata a alcança com faturamento menor.
Quando o dinheiro da venda cai?
Nas duas o valor fica retido até a entrega ser confirmada e só depois começa o prazo de liberação — poucos dias no Mercado Livre com Mercado Envios, mais tempo para conta sem reputação; na Shopee, na confirmação do comprador ou automaticamente alguns dias após a entrega registrada.
Ficou com dúvida?
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