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Blocos de carimbo de madeira com as faces manchadas de tinta, ao lado de uma almofada de tinta vermelha e preta sobre superfície branca
Segunda fronteira · Paraguai

Salto del Guairá: como funciona a fronteira, posto por posto

A segunda fronteira do Paraguai não tem uma porta, tem duas — e elas funcionam em horários diferentes. Uma é seca, com Mundo Novo (MS), e fecha no fim de semana. A outra é fluvial, com Guaíra (PR), e abre todo dia. Este guia é sobre o mecanismo da travessia: postos, horário, alfândega, carimbo e o que a fonte oficial não publica.

Neste artigo

Quem procura Salto del Guairá encontra sempre a mesma descrição: a fronteira calma, de cidade pequena, boa para ir com a família. Essa comparação já existe no guia que confronta as três fronteiras do Paraguai e não se repete aqui. O que quase nenhum conteúdo conta é o detalhe que decide a viagem: a mesma cidade paraguaia é servida por dois postos migratórios diferentes, com horários diferentes — e um deles não abre no fim de semana.

Este guia é sobre o mecanismo da travessia: quais são os dois postos, o horário de cada um, que estrutura brasileira fica de cada lado, quando o carimbo é obrigatório e o que a fonte oficial simplesmente não publica. Apuração de 21 de agosto de 2026, método de sempre.

A resposta curta

Salto del Guairá tem dois postos de controle migratório paraguaios. O terrestre faz fronteira com Mundo Novo (MS) e atende de segunda a sexta, das 07:00 às 15:00. O fluvial faz fronteira com Guaíra (PR) e atende de segunda a domingo, das 07:00 às 18:00. Em Ciudad del Este o posto é 24 horas, 7 dias. E a cota de US$ 500 por via terrestre, uma vez a cada 30 dias, vale igual nas duas pontas.

Dois postos migratórios, dois horários

A Dirección Nacional de Migraciones do Paraguai publica o cadastro dos seus puestos de control migratorio por departamento. No Departamento de Canindeyú aparecem dois postos na cidade de Salto del Guairá — e é aí que mora a informação que muda o roteiro:

Posto, no nome oficialCidade brasileira limítrofeTipo de passoHorário de atendimento
Barrio 29 de SetiembreMundo Novo — Mato Grosso do SulTerrestreSegunda a sexta, 07:00 às 15:00
Salto del GuairáGuaíra — ParanáFluvialSegunda a domingo, 07:00 às 18:00
Puente Internacional de la AmistadFoz do Iguaçu — ParanáTerrestre24 horas, 7 dias

A leitura prática é direta. O acesso por terra tem a janela mais curta e não funciona no fim de semana; o acesso pelo rio, com Guaíra, é o que abre todo dia e vai até as 18:00. E a diferença para a fronteira mais conhecida do país é grande: na Ponte da Amizade o posto paraguaio nunca fecha — é o que o guia de melhor dia e horário explora do outro lado.

Duas ressalvas de método. A primeira: a mesma página do órgão publica duas tabelas do mesmo cadastro, uma com horário único e outra com horário sazonal, separando inverno e verão. Para estes três postos as duas coincidem, e inverno e verão têm o mesmo horário — em outro posto do mesmo departamento elas divergem, o que é motivo suficiente para citar sempre a tabela sazonal.

A segunda é mais desconfortável: em 21 de agosto de 2026 o site da Migraciones esteve integralmente fora do ar, testado do Brasil por dois caminhos independentes. Os horários acima saíram de uma cópia literal da página oficial capturada em 10 de julho de 2026. Não dá para prometer que você confere isso no site na véspera: o servidor do órgão caiu por um dia inteiro. Trate os horários como o retrato datado que são e confirme no próprio posto.

A ponte de 3,6 km não leva ao Paraguai

Este é o erro mais repetido sobre a região, e nós mesmos já o publicamos: a ideia de que se chega a Salto del Guairá por uma ponte de 3,6 km. Essa ponte existe, mas é outra travessia. O DNIT registra a revitalização da Ponte Ayrton Senna com "3.600 metros de extensão", na BR-163/PR, do km 349 ao km 354, em Guaíra (acesso em 21/08/2026). Quem nomeia as duas margens é o cadastro rodoviário do Mato Grosso do Sul: o SRE-MS 2025 da AGESUL fecha o trecho final da MS-141, em Mundo Novo, na "Ponte sobre Rio Paraná (Divisa MS/PR)". É uma ponte entre dois estados brasileiros.

A fronteira com o Paraguai, em Mundo Novo, é seca. A própria prefeitura de Mundo Novo descreve a divisa como "linha terrestre asfaltada" e informa que as duas cidades são "separadas por uma distância de 14 km" (acesso em 21/08/2026). A página não menciona ponte nenhuma. Do lado de Guaíra, a travessia é pelo rio — e é por isso que a migração paraguaia classifica aquele posto como fluvial.

Imprecisão em fonte oficial, declarada

A página de apresentação da unidade da Receita Federal em Mundo Novo descreve o município como tendo "a ponte Ayrton Sena" fazendo divisa com o Paraguai. Quatro fontes independentes — DNIT, AGESUL, prefeitura de Mundo Novo e a classificação dos postos pela Migraciones — apontam o contrário, e é a leitura que adotamos. Registramos a divergência com as duas URLs em vez de escondê-la: texto da unidade ALF/MNO e a notícia do DNIT acima.

Duas alfândegas, duas Regiões Fiscais

A consequência de ter duas portas é estrutural, e é a diferença mais verificável entre esta fronteira e a de Foz do Iguaçu: a mesma cidade paraguaia é encarada por duas estruturas aduaneiras brasileiras, em Regiões Fiscais distintas.

Na tabela de pontos de fronteira alfandegados da Receita Federal (acesso em 21/08/2026), Mundo Novo (MS) aparece na 1ª Região Fiscal, criado pelo Ato Declaratório SRRF01 nº 20/2002, recinto 1921901; a unidade fica na Rodovia BR-163, km 6,7, zona rural. Guaíra (PR) aparece na 9ª Região Fiscal, pelo ADE SRRF09 nº 67, de 26/06/2002, recinto 9.91.17.01-0, sob jurisdição da Alfândega de Foz do Iguaçu, que responde também pelas Inspetorias de Santa Helena e Guaíra.

O contraste com Ciudad del Este está no próprio nome do registro: lá o ponto é "PONTO DE FRONTEIRA DE FOZ DO IGUAÇU/PR - CIUDAD DEL ESTE (PARAGUAI) PONTE DA AMIZADE", criado pelo ADE SRRF09 nº 70, de 26/06/2002. O ponto de Foz nomeia a ponte e a cidade paraguaia; o de Mundo Novo não nomeia ponte nenhuma — coerente com a fronteira seca descrita pela prefeitura.

Uma lacuna que o guia declara em vez de preencher: nem a Receita Federal nem a Polícia Federal publicam o horário de atendimento desses postos de fronteira. Procuramos nas páginas das duas alfândegas e na de controle migratório da PF. O único horário que aparece é o da delegacia da PF em Foz do Iguaçu — que é da delegacia, não do posto na ponte, e usar um pelo outro seria chute com cara de dado.

O carimbo: quando é obrigatório e quando não é

A regra geral do Paraguai é clara e está na página de requerimientos migratorios da Migraciones, sob a Ley N° 6.984/22: todas as pessoas, nacionais e estrangeiras, maiores e menores de idade, têm a obrigação de registrar ingresso e saída do país. O trâmite é gratuito e só é feito nos postos habilitados, perante funcionários do órgão.

A exceção — a única que o órgão informa — é o régimen de tránsito libre acordado nos passos fronteiriços com o Brasil. É o que explica por que quem cruza a fronteira entre cidades gêmeas normalmente não para para carimbar. Duas coisas precisam ficar na ordem certa: é exceção, não regra; e é dispensa de registro, jamais de documento. A mesma fonte exige passaporte válido ou o documento de identidade do país de origem, válido para viajar no Mercosul, e avisa que protocolo de segunda via em trâmite não é aceito. Para menores há documentação e autorização próprias, e requisitos de saúde são assunto à parte.

Quando o registro é exigido, ele é pessoal e presencial, feito no momento da passagem, sem terceiros e sem efeito retroativo. Traduzindo: é preciso descer e ir ao posto — e aí o horário da tabela vira restrição real. Na saída, apresenta-se o comprovante de entrada. Se você pretende ficar mais que uma ida e volta no mesmo dia, o prazo de permanência tem regra própria.

A advertência que muda o roteiro de quem emenda duas fronteiras

A publicação da Migraciones de 2 de dezembro de 2025 sobre as condições do régimen de tránsito libre — que trata do Puente Internacional de la Amistad — registra que o regime só vale para quem entra e sai pelo mesmo passo fronteiriço, e que quem sair por outro posto sem ter registrado a entrada fica sujeito a multa por ingresso não declarado. Quem planeja entrar por Foz e voltar por Salto del Guairá, portanto, deve registrar a entrada. A mesma publicação fixa um perímetro de 30 km a partir da linha de fronteira, mas trata do Puente de la Amistad: não localizamos documento que estenda esse raio aos passos de Salto del Guairá, e por isso não repetimos o número como se valesse aqui.

Do lado brasileiro, as funções de polícia de fronteira são da Polícia Federal, "sem prejuízo de outras fiscalizações" da Receita Federal, conforme o art. 165 do Decreto nº 9.199/2017. O art. 307, VII do mesmo decreto define furtar-se ao controle migratório como infração administrativa punida com multa. Do lado paraguaio a multa é de 6 jornaisGs. 702.462 em espécie na tabela de aranceles da DNM vigente desde 1º/07/2026, e sobe a cada reajuste do jornal (acesso em 24/08/2026).

Chegar sem carro: o que a ANTT publica, e o que não

Aqui a apuração rendeu um achado que quase virou lacuna falsa. A ANTT não publica quadro de horários nem tarifa de linha internacional no portal institucional — mas publica, no portal de dados abertos, o conjunto Internacional - Linhas Acordadas Mercosul, que nomeia a linha, o tipo de serviço, a frequência acordada e o ponto fronteiriço. E lá estão duas linhas semiurbanas ligando o Brasil a Salto del Guairá: uma de Mundo Novo, com frequência acordada de 5 horários diários, e uma de Guaíra, com 6 horários diários.

Três travas antes que isso vire promessa. Primeira: linha acordada não é linha em operação — o próprio cadastro anota, no registro da linha de Mundo Novo, a cassação da licença de operação da transportadora (o nome da empresa não é reproduzido aqui). Segunda: o dado tem de ser citado com o mês do arquivo. Usamos o de outubro de 2024, o último publicado com conteúdo; os arquivos posteriores continuam saindo todo mês, porém com os campos preenchidos como "N/A". Terceira: não há coluna de tarifa no cadastro — o que é a prova boa de que o preço dessas linhas não é publicado por órgão nenhum, já que ele estaria justamente ali.

Um detalhe do cadastro corrobora a geografia da seção anterior: a linha que sai de Guaíra tem como ponto fronteiriço "MUNDO NOVO (BR) – SALTO DEL GUAIRA (PRY)". Ou seja, no registro oficial o ônibus alcança a cidade paraguaia por terra, via Mundo Novo.

De carro, as distâncias com fonte oficial são as do DER-PR: 679 km de Curitiba a Guaíra, pela BR-277, BR-467 e PR-182, e 630 km de Curitiba a Foz do Iguaçu. A distância de Campo Grande a Mundo Novo não foi localizada em fonte oficial e por isso não aparece aqui — site de cálculo de rota não é fonte. Quem vai dirigindo encontra o preparo no guia de ir de carro ao Paraguai; quem prefere ônibus, o caso de Foz para Ciudad del Este; e quem emenda as duas fronteiras na mesma viagem tem ainda a decisão de onde dormir.

O comércio, o regime paraguaio e o horário que ninguém publica

O comércio voltado ao comprador estrangeiro tem enquadramento fiscal próprio no Paraguai, e Salto del Guairá está dentro dele. O Régimen de Turismo de Compras, criado pelo Decreto nº 2.063/2024 e alterado pelo Decreto nº 3.237/2025 — os PDFs estão na página de normativas do régimen de turismo da DNIT paraguaia —, habilita estabelecimentos de seis cidades, entre elas Salto del Guairá, a importar bens de uma lista anexa e vendê-los a "personas físicas extranjeras no domiciliadas en el país (turistas)", com alíquota efetiva de IVA de 1,25% e antecipo de 1% do imposto de renda empresarial.

Isso explica o perfil das vitrines, mas não é um benefício que o comprador leve para casa: a regra brasileira da volta continua sendo a da bagagem. E há uma lacuna honesta a declarar — a lista de bens está no anexo do decreto e não foi lida nesta apuração, então não enumeramos categorias por conta própria. O documento fiscal que o lojista emite tem regra própria, tratada no guia da factura legal do Paraguai.

O horário do comércio, por sua vez, não é publicado por fonte oficial. Procuramos no site da municipalidade, no portal da DNIT paraguaia e no cadastro da Migraciones. O que a Municipalidad de Saltos del Guairá publica é o horário da prefeitura, das 07:00 às 15:00, e a existência da Ordenanza Municipal nº 004/26, que fixa os dias de asueto do ano — cujas datas também não conseguimos ler. Não substitua um pelo outro: horário de posto migratório não é horário de loja.

Vale registrar o vínculo formal entre as cidades. O Decreto nº 11.859/2023, que promulga o Acordo sobre Localidades Fronteiriças Vinculadas com o Paraguai, lista no Anexo I as duplas "Guaíra/Mundo Novo - Saltos del Guairá" e "Japorã - Saltos del Guairá" — com a grafia no plural. ⚠️ Os benefícios do Acordo, porém, alcançam apenas quem é efetivamente domiciliado nessas áreas e titular da Carteira de Trânsito Vicinal Fronteiriço. Morar longe e visitar não dá acesso a nada disso.

Fontes oficiais e primárias

lei, decreto, portaria, órgão público e estatística oficial

A volta: o que não muda por ser a segunda fronteira

Nenhuma regra aduaneira brasileira fica mais frouxa por a cidade ser menor. A cota de isenção da Receita Federal é de US$ 500 por via terrestre, fluvial ou lacustre, exercível uma vez a cada 30 dias, e vale igual nas duas portas de Salto del Guairá (acesso em 21/08/2026). O detalhe da bagagem, das quantidades e do que sequer pode entrar está no guia do que não pode trazer.

Duas notas específicas de fronteira terrestre. A liberação automática da declaração eletrônica vale para quem chega de avião — quem volta por terra ou pelo rio não tem esse tratamento, e o passo a passo está no guia da e-DBV. E o regime legal do microimportador, o RTU, não opera aqui: ele exige entrada terrestre pela Ponte da Amizade, com desembaraço no recinto próprio. Quem pensa em comprar para revender precisa saber que a cota é de uso pessoal e que mercadoria com destinação comercial descaracteriza a bagagem — o desfecho dessa história é a pena de perdimento.

Cidade de fronteira muda de cara rápido: horário de posto, obra na estrada, ordenança nova. Este guia é o retrato de 21 de agosto de 2026, com cada número linkado à fonte e as lacunas declaradas em vez de chutadas. Atravessou recentemente e viu diferente? Conta pra gente — a correção entra com crédito, como no resto da frente Paraguai.

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Perguntas frequentes

Depende de qual dos dois. O posto terrestre, que faz fronteira com Mundo Novo (MS), atende de segunda a sexta, das 07:00 às 15:00. O posto fluvial, que faz fronteira com Guaíra (PR), atende de segunda a domingo, das 07:00 às 18:00. Os horários são os publicados pela Dirección Nacional de Migraciones do Paraguai, em captura de 10 de julho de 2026. São horários de posto migratório — não de comércio, nem da Receita Federal brasileira.

Pelo cadastro da migração paraguaia, o posto terrestre com Mundo Novo não atende sábado nem domingo, e o fluvial com Guaíra atende todos os dias, das 07:00 às 18:00. Isso é o que a fonte diz sobre o atendimento migratório, e é a única baliza oficial de janela de travessia que localizamos. Quem chega num sábado contando com o posto terrestre precisa saber disso antes de pegar a estrada.

Porque a cidade paraguaia é encarada por dois municípios de estados diferentes. Mundo Novo fica no Mato Grosso do Sul, na 1ª Região Fiscal da Receita Federal, com ponto de fronteira alfandegado próprio desde 2002. Guaíra fica no Paraná, na 9ª Região Fiscal, sob jurisdição da Alfândega de Foz do Iguaçu. É a diferença estrutural em relação a Ciudad del Este, onde há um único ponto alfandegado nomeado na tabela oficial.

A regra geral da Ley N° 6.984/22 é que sim: todas as pessoas têm a obrigação de registrar ingresso e saída, gratuitamente, nos postos habilitados. A única exceção informada pelo órgão paraguaio é o régimen de tránsito libre acordado nos passos com o Brasil. Isso dispensa o registro, nunca o documento — e a própria fonte avisa que há controles aleatórios da migração paraguaia e da Polícia Federal brasileira.

Existem duas linhas internacionais acordadas entre os dois países, registradas no cadastro de dados abertos da ANTT de outubro de 2024, com frequências acordadas de 5 e de 6 horários diários. Acordada não significa em operação: o próprio cadastro anota, numa delas, a cassação da licença de operação da transportadora. Nenhum órgão publica tarifa nem quadro de horários dessas linhas.

Jeff Bruno

Jeff Bruno

Editor responsável do Atacado Modas. Gerente de e-commerce há 5 anos em uma grande operação de varejo, passou anos comprando no Paraguai para revender e hoje lida com importação da China na operação onde trabalha. Aqui escreve o que dá para provar: toda ficha sai com data e fonte. Curitiba/PR.

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