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Peças de roupa dobradas em tons neutros, sacola de papel kraft, etiquetas em branco e novelo de barbante vistos de cima sobre fundo claro
Dados do setor · Brasil

O que mais vende em loja de roupas: o que os dados mostram

A lista de "dez peças que mais vendem" que circula na internet não existe como estatística oficial — nenhum órgão publica ranking de peça vendida no varejo brasileiro. O que existe, e quase ninguém publica, é o calendário mês a mês da demanda, a composição do gasto da família com vestuário e o tamanho do campo. É disso que este guia trata, com a fonte de cada número ao lado.

Neste artigo

Quem digita "o que mais vende em loja de roupas" encontra quase sempre a mesma coisa: uma lista de dez peças, sem fonte, repetida de blog em blog. Essa lista não existe como estatística oficial. O que existe é outra coisa, e serve melhor a quem vai comprar a próxima carga.

A resposta curta

Nenhum órgão público divulga ranking de peça mais vendida no varejo brasileiro: a estatística mensal de venda do IBGE para no agrupamento "Tecidos, vestuário e calçados" e não se abre por produto. O que dá para responder com fonte é quando a demanda aparece — dezembro foi o maior mês em 26 dos 26 anos completos da série —, como a família divide o que gasta com vestuário, o que a indústria formal mais produz em quantidade e de que tamanho é o campo em que você entra.

Este guia é o mapa da demanda, e para aí de propósito. Quanto sobra de cada peça é assunto do guia de margem na revenda; o que fazer com a peça que encalhou está em comprei roupa e não estou conseguindo vender.

Não existe ranking de peça vendida — existem quatro retratos

A estatística mensal do comércio publica onze categorias de atividade, e a mais fina que toca em roupa é "Tecidos, vestuário e calçados" — uma atividade só, que junta as três coisas (tabela 8882 do SIDRA, acesso em 24/08/2026). Não há série de "roupa" isolada, muito menos por peça. A pesquisa que desce ao nível do produto existe, mas mede produção industrial e é anual.

O que dá para montar com fonte primária são quatro retratos que se completam:

  • o calendário da venda, mês a mês, desde janeiro de 2000;
  • o gasto declarado da família com vestuário, e como ele se divide;
  • o que a indústria formal mais produz em quantidade, por tipo de peça;
  • o tamanho do campo: quantas empresas disputam e quanto movimentam.

Antes de qualquer número, a ressalva que vale para o guia inteiro. A pesquisa mensal investiga empresas formais com 20 ou mais pessoas ocupadas (página do produto no IBGE, acesso em 24/08/2026). A pesquisa anual do comércio exclui expressamente o comércio ambulante. A pesquisa industrial anual de produto é, na prática, um censo de indústrias com 30 ou mais pessoas ocupadas. Ou seja: nenhuma das fontes deste guia enxerga a venda informal — feira, sacola, venda em casa e rede social ficam fora de todas elas. Os números descrevem o mercado formal de porte, e é assim que devem ser lidos.

O calendário: dezembro venceu em 26 dos 26 anos

Este é o dado mais estável do assunto. Na série de volume de vendas de "Tecidos, vestuário e calçados", dezembro foi o mês de maior volume em todos os 26 anos completos entre 2000 e 2025 — sem uma única exceção. E o piso fica no começo do ano: o menor mês foi janeiro ou fevereiro em 24 desses 26 anos. As duas exceções são 2020 (abril) e 2021 (março), os meses de loja fechada na pandemia.

O perfil médio do ano fica assim. É cálculo próprio sobre a tabela 8882: a média, por mês, do índice de cada ano dividido pela média daquele ano, de 2022 a 2025 — com a média do ano igualada a 100.

MêsÍndiceMêsÍndice
Janeiro81,2Julho99,6
Fevereiro75,6Agosto96,3
Março84,8Setembro85,6
Abril91,3Outubro91,0
Maio110,1Novembro104,8
Junho106,7Dezembro173,0

Se preferir um número que não dependa de normalização nenhuma, use a razão direta entre os dois extremos do mesmo ano: dezembro vendeu 2,36 vezes o volume de fevereiro em 2023, 2,46 vezes em 2024 e 2,21 vezes em 2025.

Duas leituras que a série sustenta e que costumam surpreender. Maio e junho são o segundo bloco forte do ano, acima de novembro na média recente. E não existe um "segundo Natal" fixo: o segundo maior mês do ano alternou ao longo da série — foi maio em 14 anos, novembro em 7 e junho em 5.

Roupa é a atividade mais sazonal do varejo — e janeiro é de papelaria

Entre as onze categorias de atividade que a pesquisa mensal divulga, "Tecidos, vestuário e calçados" tem a maior amplitude sazonal — 2,29 vezes entre o mês mais forte e o mais fraco, na média de 2022 a 2025 — e o maior pico de dezembro de todas, 173,0 contra 127,6 do segundo colocado, "Outros artigos de uso pessoal e doméstico". No mesmo período, o varejo total faz dezembro em 121,6, com amplitude de 1,36 vez. Traduzindo: no varejo em geral, dezembro fica cerca de um quinto acima da média do ano; em roupa, cerca de setenta por cento acima.

É aqui também que cai um senso comum. A volta às aulas não é evento de roupa. Janeiro é o segundo pior mês de "Tecidos, vestuário e calçados" (81,2) e, no mesmo indicador e no mesmo período, é o mês de pico da atividade "Livros, jornais, revistas e papelaria" (176,1) — a maior marca mensal de qualquer atividade da pesquisa fora do dezembro do vestuário. Existe demanda de uniforme escolar; ela simplesmente não aparece no agregado.

Sobre novembro, o cuidado é o inverso do que se espera. A série não autoriza dizer que a Black Friday fez o mês crescer: novembro marcou 107,1 em 2006 e 108,8 em 2007, antes de a data existir no Brasil, e oscilou entre 95,7 e 111,7 nos últimos quatro anos, sem tendência limpa. O que a série mostra é outra coisa: o peso relativo de dezembro caiu ao longo de 26 anos — ficava entre 189 e 203 nos anos 2000 e ficou entre 167 e 178 em 2022-2025.

Por fim, o pico não tem o mesmo tamanho em todo lugar. Entre as 12 Unidades da Federação para as quais o IBGE divulga a atividade, a razão dezembro/fevereiro foi de 1,29 (Espírito Santo, 2025) a 2,86 (Pernambuco, 2024). Vale medir o próprio estado antes de dimensionar a compra de fim de ano — e a escolha da praça está no comparativo dos polos de atacado.

A fábrica anda ao contrário da loja

Este é o achado menos publicado do assunto, e é operacional. A produção física da confecção faz o pico em outubro e novembro e o piso em dezembro e janeiro — exatamente o inverso da venda. Na mesma normalização (média de 2022 a 2025, média do ano igualada a 100): outubro 117,9 · novembro 113,3 · dezembro 79,1 · janeiro 81,7 (tabela 8888 do SIDRA, acesso em 24/08/2026).

O desenho se repete nos três elos da cadeia, o que descarta ruído de uma série só: produtos têxteis fazem outubro em 110,3 e dezembro em 74,0, na mesma tabela; e a classe fabricação de calçados, outubro em 118,7 e dezembro em 74,5 (tabela 8885 do SIDRA, acesso em 24/08/2026).

A consequência prática é simples. A peça de fim de ano existe no estoque do fornecedor em setembro e outubro, quando a fábrica está no auge — não em dezembro, quando a loja está no auge e a linha já virou para a coleção seguinte. Quem revende compra antes de vender, e é por isso que a decisão de compra precisa de ficha por tamanho e cor, assunto do guia de controle de estoque por grade.

Onde vai o dinheiro que a família gasta com vestuário

O retrato do gasto vem da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, a edição mais recente divulgada pelo IBGE. Os valores estão a preços de 15 de janeiro de 2018 e a coleta foi de 11/07/2017 a 11/07/2018 — não são valores de hoje, e não há edição posterior publicada.

A família brasileira destinava R$ 160,25 por mês ao grupo vestuário, o que representa 4,3% das despesas de consumo (o denominador aqui são os R$ 3.764,51 de despesa de consumo, não a despesa total de R$ 4.649,03 — sobre a despesa total, o mesmo valor dá 3,4%). Com isso, vestuário é o sexto maior grupo do orçamento, atrás de habitação, transporte, alimentação, saúde e educação (tabela 6715 do SIDRA e a publicação Primeiros Resultados, acesso em 24/08/2026).

Dentro do grupo, a divisão é esta — as participações são cálculo próprio sobre os valores publicados:

Dentro do gasto com vestuárioPor mêsParticipaçãoGuia do segmento
Roupa de mulherR$ 48,6730,4%moda feminina, plus size, moda evangélica
Calçados e apetrechosR$ 42,9326,8%calçados no atacado
Roupa de homemR$ 38,6524,1%moda masculina
Roupa de criançaR$ 21,5813,5%roupa infantil
Joias e bijuteriasR$ 6,594,1%bijuteria e semijoia
Tecidos e armarinhosR$ 1,831,1%

Duas advertências antes de usar a tabela. "Vestuário" na pesquisa não é só roupa: inclui calçados e apetrechos, joias e bijuterias, tecidos e armarinho, como a própria publicação registra. E isto é gasto declarado pela família, não unidade vendida — peça cara puxa o valor sem puxar a quantidade. Segmentos que dependem de uso, e não de guarda-roupa, como moda praia e moda fitness, não aparecem separados em nenhuma linha oficial.

O comportamento por renda também é contraintuitivo: da faixa mais baixa para a mais alta, o valor sobe de R$ 63,46 para R$ 655,96 por mês (10,3 vezes), enquanto a participação no orçamento cai de 4,2% para 2,4%. O padrão se repete entre regiões — o Norte gasta o menor valor absoluto (R$ 140,46) e a maior fatia do consumo (5,3%); o Sudeste, R$ 163,05 e 3,7%; o Centro-Oeste tem o maior valor absoluto, R$ 198,86, com 4,5%.

O que a indústria formal mais produz, em quantidade

Aqui está o único recorte oficial que desce ao nível da peça — e ele mede produção, não venda. Na pesquisa industrial anual de produto de 2024, as maiores quantidades foram: camisetas e camisetas interiores adulto, 173,2 milhões de peças; calcinhas de malha, 161,9 milhões; blusas e camisas de malha de uso feminino adulto, 135,5 milhões; cuecas e semelhantes de malha, 125,1 milhões; vestuário infantil de malha, 69,4 milhões (tabela 10476 do SIDRA, acesso em 24/08/2026).

Três ressalvas obrigatórias. A pesquisa é censo de indústrias com 30 ou mais pessoas ocupadas (página do produto, acesso em 24/08/2026): toda a confecção pequena e a facção ficam de fora. O recorte ignora o importado, que é parte relevante do que se revende — a comparação de origem está em comprar no Brás ou importar da China. E a tabela mistura "unidades" e "mil unidades" na mesma coluna; a ordem acima foi normalizada antes de ser publicada aqui, porque ordenar pelo valor cru erra por um fator de mil.

Lido com essas ressalvas, o retrato diz uma coisa só, e ela é sobre volume de fabricação: o país produz muita peça básica de malha. Não diz o que gira na sua vitrine.

Fontes oficiais e primárias

lei, decreto, portaria, órgão público e estatística oficial

De que tamanho é o campo — e o que os dados não alcançam

A pesquisa anual do comércio de 2024 mede o campo inteiro (tabela 10645 do SIDRA, acesso em 24/08/2026). O varejo de artigos do vestuário e complementos tinha 123.163 empresas, 653.824 pessoas ocupadas e R$ 126,04 bilhões de receita líquida de revenda. A leitura que importa: são 10,5% de todas as empresas do comércio varejista brasileiro para 4,0% da receita do varejo — muitos pontos de venda, ticket pequeno.

Recorte da CNAE, 2024EmpresasPessoas ocupadasReceita líquida de revenda
Varejo de vestuário e complementos (4781)123.163653.824R$ 126,04 bi
Varejo de calçados e artigos de couro (4782)27.246190.949R$ 40,91 bi
Atacado de vestuário e acessórios (4642)5.93136.096R$ 18,63 bi

O contraste entre as linhas é o que a diferença entre os elos significa na prática, tema do guia sobre atacado, varejo e atacarejo. Duas notas de leitura: a própria pesquisa marca a estimativa de calçados como menos precisa que a de vestuário (coeficiente de variação de 15,3% contra 4,6%), e a edição de 2024 iniciou série nova — esses números não se comparam com os de 2023 ou anteriores (página do produto, acesso em 24/08/2026).

Fechando com o que não foi possível responder, porque é o que separa dado de chute:

  • Sazonalidade por peça — quando vende biquíni, quando vende jaqueta — não existe em fonte oficial. Foram consultados os metadados das tabelas 8882 (venda), 8885 e 8888 (produção mensal) em 24/08/2026: a abertura máxima é por atividade, nunca por produto. O nível de peça só aparece na pesquisa anual de produto, uma vez por ano.
  • Onde a família compra roupa hoje — loja, feira, internet, ambulante — teve o último retrato oficial na Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008-2009. Foram varridos os 154 agregados da pesquisa na base do IBGE em 24/08/2026: as tabelas de locais de compra param em 2008. Publicar aquilo como retrato atual seria erro — o canal mudou inteiro desde então, assunto de loja física ou online.
  • Venda informal não é medida por nenhuma das quatro pesquisas usadas aqui, e cada uma exclui por um critério diferente.

Como conjuntura, o retrato mais recente é de junho de 2026, divulgado em 13/08/2026: o volume de vendas de "Tecidos, vestuário e calçados" caiu 1,7% contra junho de 2025 e acumula -1,2% em 12 meses, enquanto a receita nominal subiu 1,3% no mesmo confronto e 2,6% em 12 meses (release do IBGE, acesso em 24/08/2026). Preço subindo mais que quantidade — e esse número envelhece a cada divulgação mensal, ao contrário do calendário, que é estável há 26 anos.

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Transparência: alguns links deste site podem ser de parceria — comprando por eles, o site pode receber comissão, sem custo extra pra você. A apuração não muda: ficha com data e fonte, com ou sem parceria.

Perguntas frequentes

Não existe resposta oficial com esse recorte. A estatística mensal de venda do IBGE para no agrupamento "Tecidos, vestuário e calçados" e não se abre por peça, e a pesquisa que desce ao nível do produto mede produção industrial, não venda no varejo. O que dá para responder com fonte é quando a demanda aparece, como a família divide o gasto com vestuário e o que a indústria formal mais produz em quantidade. Lista de "as dez peças que mais vendem" sem fonte citada é opinião, não dado.

Dezembro, e sem disputa. Na série do IBGE para "Tecidos, vestuário e calçados", dezembro foi o mês de maior volume em todos os 26 anos completos entre 2000 e 2025, sem uma única exceção. O piso fica no começo do ano: o menor mês foi janeiro ou fevereiro em 24 desses 26 anos. Sem nenhuma normalização, dezembro vendeu 2,36 vezes o volume de fevereiro em 2023, 2,46 vezes em 2024 e 2,21 vezes em 2025 (tabela 8882 do SIDRA, acesso em 24/08/2026).

No agregado, não. Janeiro é o segundo pior mês de "Tecidos, vestuário e calçados" na média de 2022 a 2025 e, no mesmo indicador e no mesmo período, é o mês de pico da atividade "Livros, jornais, revistas e papelaria". A volta às aulas é evento de papelaria. Isso não nega que exista demanda de uniforme escolar — nega que ela apareça no número do setor de vestuário.

R$ 160,25 por mês com o grupo vestuário, o equivalente a 4,3% das despesas de consumo da família. O número vem da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, a mais recente divulgada pelo IBGE, e está a preços de 15 de janeiro de 2018 — não é valor de hoje. Atenção ao conteúdo do grupo: vestuário na pesquisa inclui calçados e apetrechos, joias e bijuterias, tecidos e armarinho, não só peça de vestir.

123.163 empresas no varejo de artigos do vestuário e complementos em 2024, com 653.824 pessoas ocupadas em 31 de dezembro, segundo a Pesquisa Anual de Comércio. São 10,5% de todas as empresas do comércio varejista brasileiro para 4,0% da receita líquida de revenda do varejo — muitos pontos de venda e ticket pequeno. O comércio ambulante está fora dessa conta por definição da própria pesquisa.

Jeff Bruno

Jeff Bruno

Editor responsável do Atacado Modas. Gerente de e-commerce há 5 anos em uma grande operação de varejo, passou anos comprando no Paraguai para revender e hoje lida com importação da China na operação onde trabalha. Aqui escreve o que dá para provar: toda ficha sai com data e fonte. Curitiba/PR.

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