Circuito das Malhas: o que cada cidade vende e qual escolher
Quem tem um fim de semana precisa decidir para onde ir, e as duas cidades mais parecidas do circuito vendem quase a mesma coisa. Este guia é sobre o que separa uma da outra — título em lei, densidade de loja, etapa da cadeia e tipo de feira.
Neste artigo
Quem tem um fim de semana para comprar malha no sul de Minas não escolhe entre "as cidades do tricô". Escolhe entre duas cidades vizinhas que vendem quase a mesma coisa e uma terceira que vende outra coisa, em outra estrada. A diferença não está no produto — está no que cada cidade é.
O Circuito Turístico das Malhas do Sul de Minas tem seis municípios: Albertina, Borda da Mata, Inconfidentes, Jacutinga, Monte Sião e Ouro Fino. Juruaia não é um deles — está em outro circuito, no sudoeste do estado, e o produto dela é lingerie. Entre as duas cidades de malha, Monte Sião tem mais que o dobro da densidade de comércio de roupa de Jacutinga (14,24 lojas de vestuário por mil habitantes contra 5,99, cálculo nosso sobre IBGE 2024 e Censo 2022). E nenhuma entidade do circuito publica regra de CNPJ ou pedido mínimo.
Seis cidades, dois recortes — e Juruaia fora dos dois
A composição do circuito não é folclore: está em documento oficial. A Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais publica todo ano a lista dos municípios participantes da Política de Regionalização do Turismo, e a listagem publicada no Diário do Executivo de 19 de setembro de 2025 traz, no item 16, a Instância de Governança Regional Malhas do Sul de Minas com Albertina, Borda da Mata, Inconfidentes, Jacutinga, Monte Sião e Ouro Fino. São os mesmos seis da listagem de 2020 — a composição não mudou em cinco anos.
A base normativa hoje é o Decreto estadual nº 48.804, de 25 de abril de 2024, regulamentado pela Resolução SECULT nº 33, de 27 de maio de 2025. Dois dispositivos dela importam para quem planeja a viagem: o circuito precisa de no mínimo cinco municípios, e nenhum município pode integrar mais de um circuito. É por isso que Juruaia não pode estar aqui: ela aparece no item 18 da mesma listagem, no circuito Montanhas Cafeeiras de Minas, ao lado de Guaxupé, Muzambinho e São Sebastião do Paraíso.
Existe ainda um segundo recorte, industrial e mais largo. A Lei estadual nº 15.900, de 6 de dezembro de 2005 criou um Pólo Tecnológico têxtil no sul de Minas com dezessete municípios — e os seis do circuito turístico estão todos dentro dele. O polo é o mapa da indústria; o circuito é o pedaço que virou roteiro. A ficha da lei na Assembleia não registra revogação, mas ela é de 2005 e manda criar uma comissão de desenvolvimento que não conseguimos confirmar em funcionamento hoje.
Nada disso é garantia de venda no atacado. Circuito turístico é governança de turismo, e a distinção entre quem fabrica e quem revende continua sendo checada no registro da empresa, como está em comprar direto da fábrica.
A tabela da escolha
O Cadastro Central de Empresas do IBGE é a régua que permite comparar as cinco cidades sem adjetivo. As duas primeiras colunas são contagem oficial de 2024; a terceira e a quarta são cálculo nosso sobre esses números e a população do Censo 2022. Consulta em 27/08/2026, na tabela 9528 do SIDRA.
| Cidade | Confecção (divisão 14) | Lojas de vestuário | Lojas por mil hab. | Pessoas por confecção |
|---|---|---|---|---|
| Monte Sião (MG) | 734 | 343 | 14,24 | 3,84 |
| Jacutinga (MG) | 296 | 153 | 5,99 | 6,22 |
| Juruaia (MG) | 160 | 65 | 5,86 | 7,89 |
| Serra Negra (SP) | 48 | 176 | 5,89 | 3,56 |
| Socorro (SP) | 99 | 156 | 3,89 | 6,44 |
Três leituras saem daí. Monte Sião é cidade-loja, não só cidade-fábrica: são 343 estabelecimentos de comércio varejista de vestuário, mais que o dobro de Jacutinga, numa cidade com menos habitantes. Serra Negra é o oposto: 176 lojas de roupa para 48 confecções — mais pontos de venda que Jacutinga, com um sexto das fábricas. E o estabelecimento médio de confecção de Juruaia é o maior do grupo — o dobro de pessoas por unidade em relação ao de Monte Sião, que é um parque de oficinas pequenas. O setor maior continua sendo o de Monte Sião, com 734 unidades contra 160.
Duas ressalvas que mudam a interpretação. O cadastro conta estabelecimento pela atividade declarada, nunca volume produzido nem faturamento: "343 lojas" não é "343 lojas de fábrica", e nenhuma coluna aqui diz quem vende mais. E o sinal "–" da tabela do IBGE é zero de verdade, enquanto "X" é dado escondido por haver menos de três informantes — confundir os dois inverte conclusões. Vale ainda registrar o que a série mostra: entre 2022 e 2024 todas as cinco encolheram em pessoal ocupado na confecção. Nenhuma cidade do eixo está em alta.
Monte Sião ou Jacutinga: o par difícil
É aqui que a escolha trava, porque as duas vendem o mesmo produto. Em Monte Sião, 684 das 734 unidades locais de confecção estão no grupo de malharia e tricotagem, ocupando 2.683 pessoas; em Jacutinga, 266 das 296, com 1.403 pessoas. Não são especialidades diferentes: é a mesma peça, em escalas diferentes.
O que separa é a moldura. Monte Sião tem título em lei federal — a Lei nº 14.699, de 19 de outubro de 2023, que lhe confere o título de Capital Nacional da Moda Tricô. A grafia legal tem a palavra "Moda" no meio, e tanto o município quanto a associação comercial local alternam entre ela e a forma abreviada "Capital Nacional do Tricô", às vezes na mesma página. Jacutinga não tem título em lei nenhuma: o projeto veio do Senado, foi aprovado na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços e está na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara — pelos dados abertos da Câmara consultados em 27/08/2026. Ainda assim, a organizadora da feira da cidade a chama de "Capital Nacional das Malhas" e fala em 1.100 malharias e 28 mil habitantes: não há lei, e o IBGE conta 296 unidades de confecção para 25.525 residentes no Censo 2022.
A segunda diferença é a densidade de vitrine, já na tabela: 14,24 contra 5,99 lojas por mil habitantes. A terceira é a etapa de cima da cadeia — a fabricação de tecido de malha aparece nas duas e é mais numerosa em Jacutinga (19 estabelecimentos contra 9), mas é um setor minúsculo dos dois lados: 32 e 11 pessoas ocupadas em 2024. Não é escala industrial; é presença.
E há o que não separa. As duas são estâncias hidrominerais por leis estaduais de 1950, e o art. 8º da Lei estadual nº 17.110/2007 manteve expressamente os reconhecimentos anteriores. As duas também formalizaram o vínculo com a associação do circuito por lei municipal — Jacutinga em 2022, com contribuição mensal, e Monte Sião em agosto de 2026, aderindo ao plano de trabalho e a um projeto de roteirização. O detalhe de cada praça está em Monte Sião e em Jacutinga.
Juruaia é outra viagem — e outro produto
Se a dúvida inclui Juruaia, ela já está mal formulada. O IBGE mostra por quê: 151 das 160 unidades locais de confecção da cidade são de roupas íntimas, com 1.191 pessoas ocupadas — enquanto em Monte Sião e Jacutinga o cadastro não registra nenhuma unidade nessa classe. São mercados que não se substituem.
O título também é outro, e a palavra errada aqui vira erro factual. A Lei mineira nº 25.632, de 16 de dezembro de 2025, confere a Juruaia o título de Capital Mineira da Lingerie — estadual, não nacional. O título nacional de moda íntima é de Nova Friburgo, pela Lei federal nº 14.883/2024, como o site já registra no guia de Nova Friburgo. São esferas diferentes e não se anulam. Antes disso, em março de 2025, outra lei estadual já havia instituído um polo da lingerie com Juruaia como município-sede e catorze municípios — mas instituir polo por lei fixa diretrizes, não constrói fábrica.
A geografia fecha o argumento. A prefeitura declara que a cidade fica no sudoeste de Minas, a 177 km de Ribeirão Preto, 239 de Campinas e 352 de São Paulo — números do próprio município, sem data nem método de medição publicados. Não é desvio de estrada no roteiro das malhas: é outra viagem, com outro aeroporto de referência. Quem estiver montando mix de dormir e íntimo encontra o desenho por produto em pijama no atacado, e a praça em si está em Juruaia.
As três feiras não medem a mesma coisa
Se a viagem for pela feira, o calendário decide mais que a cidade — e as três feiras do eixo não são versões grande e pequena da mesma coisa.
A FENAT, em Monte Sião, é de junho e voltou recentemente: segundo a prefeitura e a associação comercial, ficou cinco anos sem acontecer e foi retomada em 2025. Em 2026 a Prefeitura de Monte Sião publicou o lançamento em 2 de junho, noticiou a feira já em curso em 4 de junho e anunciou visitação até 21 de junho. A data de abertura não foi publicada em fonte oficial, e a janela mudou de um ano para o outro.
A FestMalhas, em Jacutinga, também é de junho e se define como evento de público: o site oficial da feira responde no próprio FAQ que a participação é do público, com cadastro e sem cobrança, e em nenhum ponto usa as palavras atacado, revenda, lojista ou pedido mínimo. Uma lei municipal de 2019 põe as edições no calendário oficial e diz que a data é definida pelos organizadores — é a norma que explica por que ela nunca sai com antecedência. Os números de porte que circulam (17 dias, cerca de R$ 52 milhões, mais de 250 mil pessoas) são da própria organizadora e estão publicados sem identificar a edição, numa página que anuncia um período de 19 dias.
A FELINJU, em Juruaia, é de abril e é a única que se dirige a comprador profissional: apresenta-se a fabricantes, lojistas e revendedores, com credenciamento prévio, e a organizadora declara "mais de 2899 pessoas por edição". A 29ª edição foi de 23 a 25 de abril de 2026, pela Aciju (acesso em 27/08/2026) — a de 2027 não estava publicada. Nenhuma fonte oficial publica preço de entrada. A única régua de valor divulgada por qualquer entidade do eixo é o piso de uma promoção de cash back — R$ 3.000 por romaneio, no regulamento da 28ª edição, válido só para as expositoras que aderiram. Não é pedido mínimo, e tratar como tal falsifica a fonte. Se o vocabulário do balcão ainda for novo, comece por pedido mínimo, grade e sortido.
Um detalhe que ajuda a calibrar expectativa: a associação de Jacutinga chama a FestMalhas de "a maior feira de tricot do Brasil" e a de Monte Sião trata a FENAT como "A Maior Feira de Tricô do Brasil". Duas feiras do mesmo produto, a poucos quilômetros, reivindicando o mesmo superlativo — e nenhum deles é título legal.
Serra Negra e Socorro: a chegada pelo lado paulista
Muita gente entra na região por São Paulo e passa por duas cidades que parecem parte do polo e não são. Serra Negra e Socorro pertencem a outro circuito oficial, o Circuito das Águas Paulista, que a prefeitura de Serra Negra descreve com nove municípios: Águas de Lindóia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedreira, Serra Negra e Socorro.
Em lei paulista as duas são Estâncias Turísticas — categoria do art. 2º e do Anexo I da Lei nº 17.469, de 13 de dezembro de 2021, na redação dada pela Lei nº 18.379/2025. A expressão "Estância Turística Hidromineral", que Serra Negra usa, é autodesignação do município, não a categoria da lei. Quem for conferir a norma precisa de cuidado: a página empilha a redação antiga e a nova, e a lista revogada aparece primeiro.
O aviso prático é o da tabela. Serra Negra é praça que vende, não que costura: 176 lojas de vestuário para 48 confecções. Socorro tem outro perfil ainda — 76 das suas 99 unidades de confecção são de vestuário externo, e só uma é de roupa íntima. Parar ali achando que chegou ao polo de fábrica é o erro mais comum do trajeto.
Para chegar, a prefeitura de Serra Negra publica rotas de acesso, e a que ela indica para quem vem de Belo Horizonte passa por Ouro Fino e Monte Sião. A mesma página dá 152 km e 175 km até São Paulo por rodovias diferentes, e o texto institucional fala em 150 — são aproximações do próprio município. Vale para orientar o trajeto, não como medição. A população residente do Censo 2022 é de 29.894 pessoas; a prefeitura declara 26 mil moradores e até 45 mil em temporada, sem método publicado — e é essa sazonalidade que explica tanta loja para tão pouca fábrica.
lei, decreto, portaria, órgão público e estatística oficial
O que a apuração não confirmou
- As datas de 2027 da FENAT e da FestMalhas. Em 27/08/2026 nada havia sido publicado pelas prefeituras nem pelas organizadoras. Procuramos na busca de notícias e no diário oficial de Monte Sião, no site da FestMalhas e no da associação comercial de Monte Sião, que ainda anuncia a edição de 2025.
- O dia em que a FENAT 2026 abriu. A prefeitura publicou o lançamento (2 de junho) e o encerramento (21 de junho), e há notícia oficial da feira em curso em 4 de junho — a data de abertura, não.
- Exigência de CNPJ e pedido mínimo. Nenhuma prefeitura, associação comercial ou feira do eixo publica regra. Também não se pode concluir o contrário: o site de uma feira dizer que é aberta ao público não autoriza ninguém a escrever que se compra no atacado sem empresa.
- Lei municipal de Juruaia sobre o título. A base da Câmara local só aceita busca por ano e número, sem pesquisa por assunto — a pergunta não pôde ser feita. Para Monte Sião e Jacutinga, a busca por ementa existe e devolveu zero.
- Se tramita na Assembleia de Minas algum projeto que restrinja novos títulos de "capital" estadual. A rota institucional de pesquisa de projetos devolve 404, e a API de dados abertos da Assembleia responde (208.986 proposições em 27/08/2026) mas não documenta parâmetro de busca textual — testamos doze nomes de parâmetro e todos foram ignorados. A pergunta ficou sem via de consulta, não sem resposta.
O retrato é este: os números de empresas vêm do Cadastro Central de Empresas de 2024, a série mais recente publicada; a população, do Censo 2022; as leis, dos repositórios oficiais de Minas Gerais, de São Paulo e do Planalto; e o calendário das feiras, de fonte oficial ou da própria organizadora, sempre datado. Tudo consultado em 27 de agosto de 2026. Se a comparação for entre regiões, e não entre cidades vizinhas, a régua está em os polos lado a lado, com Santa Catarina e Brusque do outro lado da mesma decisão, e o contexto mineiro em Barro Preto, BH.
Transparência: alguns links deste site podem ser de parceria — comprando por eles, o site pode receber comissão, sem custo extra pra você. A apuração não muda: ficha com data e fonte, com ou sem parceria.
Perguntas frequentes
Seis: Albertina, Borda da Mata, Inconfidentes, Jacutinga, Monte Sião e Ouro Fino. A composição está na listagem oficial dos municípios participantes da Política de Regionalização do Turismo publicada pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais no Diário do Executivo de 19 de setembro de 2025, e é a mesma que a listagem de 2020 já trazia. Circuito turístico é recorte de governança do turismo — não é certificado de que as cidades vendam no atacado, nem lista de fábricas.
As duas vendem o mesmo produto: 684 das 734 unidades locais de confecção de Monte Sião e 266 das 296 de Jacutinga estão em malharia e tricotagem (IBGE, 2024). O que muda é a moldura. Monte Sião tem título em lei federal e muito mais comércio por habitante — 343 estabelecimentos de varejo de vestuário contra 153. Jacutinga não tem título nenhum em lei e concentra a feira mais longa das duas. Quem vai olhar vitrine tende a caminhar mais em Monte Sião; quem vai à feira decide pela data.
São recortes diferentes, e um cabe dentro do outro. O Circuito Turístico das Malhas é governança de turismo e tem seis municípios; o Pólo Tecnológico criado pela Lei estadual nº 15.900, de 2005, é industrial e tem dezessete — e os seis do circuito estão todos dentro dos dezessete. O polo é o mapa da indústria; o circuito é o pedaço que virou roteiro. Nenhum dos dois é certificado de que as cidades vendam no atacado: são enquadramentos de política pública, não regra de comércio.
Não. As duas são de São Paulo e integram o Circuito das Águas Paulista, que a prefeitura de Serra Negra descreve com nove municípios. Em lei paulista elas são Estâncias Turísticas, pelo Anexo I da Lei nº 17.469/2021 na redação da Lei nº 18.379/2025 — "Estância Turística Hidromineral" é como Serra Negra se descreve, não a categoria da lei. Aparecem no trajeto porque uma das rotas publicadas pela cidade vem de Belo Horizonte passando por Ouro Fino e Monte Sião, mas o perfil é outro: 176 lojas de vestuário para 48 confecções.
Duas das três, em esferas diferentes. Monte Sião tem título nacional por lei federal — Capital Nacional da Moda Tricô, Lei nº 14.699/2023, com a palavra "Moda" no meio. Juruaia tem título estadual desde 16 de dezembro de 2025: Capital Mineira da Lingerie, pela Lei mineira nº 25.632. Jacutinga não tem título em lei nenhuma; o projeto está na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Título de capital é honorífico: não cria regra de comércio, não obriga ninguém a vender no atacado e não garante preço.
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